
Por Reinaldo de Almeida Barros
Trecho do futuro livro, Parte 3 "A Família".
Meu avô era um homem alto e magro. A altura que eu via nele, talvez fosse pelo fato de eu ser criança. Muita coisa é grande pelos nossos olhos de pequeno. Criou os filhos no rigor da religião e era implacável nos castigos que impunha a eles quando havia negligência. Todos o respeitavam (até os casados)....
...Uma vez ele, perto de todo mundo, em cima da ponte, resolveu pular da guarda, na caixa do rio, onde a água já estava encostada na barriga da ponte. Fazia até pequenos turbilhões de cor barrenta, onde a profundidade teria um mínimo de dez metros. Ao ser estrangulada pela passagem mais estreita, a água tomava mais velocidade, escondendo sob ela um mundo desconhecido onde poderia haver, paus, galhos de espinhos ou arames de velhas cercas submersas.
Não sei o que deu na cabeça do velho, que subiu na guarda de madeira enrugada, fez pose e se atirou. Só que o impulso não foi o suficiente para jogar seu velho corpo a uma distância segura. Agitando os braços freneticamente tentava vencer a correnteza para sair acima em lugar mais calmo.
Mas apesar de seu esforço vigoroso, o rio o levava para baixo da ponte. Todo mundo estava alarmado, mas ninguém podia fazer nada, pelo menos no momento. O velho sumiu embaixo da ponte. Do outro lado, não havia barrancos nas laterais. Só mato, Nhapinda e a passagem ficava mais estreita ainda.
Os segundos pareciam horas. Todos do lado da ponte onde deveria, ou não, emergir o ancião. Alguém gritou: "Pode ter se enroscado em baixo da ponte." A tensão entre os presentes aumentou e seu filho Saulo estava inquieto pela demora.
Mas a demora não foi tão grande; encostado ao mato do lado esquerdo, emergiu a cabeça raspada do velho . Gritaram para ele agüentar ali. Arranjaram uma vara e conseguiram levar até ele, que a agarrou prontamente.
A tia Damaris estava de visita na chácara e, quando soube correu desesperada para saber o que houve. Chegou até meu avô, que estava meio encolhido, e ouvi-a dizer baixinho: _ Pai, o senhor não tem idade mais para fazer essas coisas.
Realmente, depois dessa, nunca mais vi nem soube que o velho tinha se aventurado em águas perigosas.
(CONTINUAR)…