
Artigo extraído da Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã - Editor Walter A. Elwell - 1988
As evidências bíblicas da existência de seres sobrenaturais malignos, subordinados a Satanás, são abundantes. Sua origem, no entanto, é um assunto sobre o qual a escritura não entra em detalhes.
Basicamente, há duas teorias principais sobre a origem de tais seres. Uma das teorias sustenta que uma multidão de anjos caiu em pecado, levada pela rebelião original de Lúcifer contra Deus (Mt 25.41; 2 Pe 2.4; Ap 12.7-9).
Outra teoria especula que os demônios são os filhos ilegítimos de anjos e de mulheres pré-diluvianos (Gn 6.2; Jd 6). Estes seres (nepilim, gigantes), segundo declara a teoria, deixaram espíritos maus brotarem dos seus corpos quando foram destruídos, ou nas batalhas, ou no dilúvio. A obra apocalíptica judaica de 1 Ennoque é a principal fonte para este ponto de vista (10.11 -14; cf. "os vigilantes, 16.1; 86.1-4). Esta idéia foi aceita pelo apologista cristão Justino Mártir, e percebe-se que influenciou até mesmo as opiniões de Tomás de Aquino.
Orígenes desenvolveu o conceito de uma rebelião pré-cósmica, entendendo que todas as criaturas inteligentes (os homens e os anjos) foram criados com livre arbítrio. A diversidade de relacionamentos entre estas criaturas e Deus tem a ver diretamente com a queda de Lúcifer (De princips 2.9.6). Assim, os demônios são seres angelicais que foram totalmente levados pela apostasia de Satanás. Esta tornou-se a opinião cristã predominante, adotada por Agostinho (De genesi ad literem 3.10) e Pedro Lombardo (Sentenças 2.6).
A especulação rabínica a respeito das origens demoníacas variava consideravelmente. Os demônios eram considerados espíritos infelizes desincorporados quando Deus descansava no sábado, ou como os construtores da Torre de Babel que foram castigados e transformados em demônios.
A Terminologia
Os termos gregos daimõn e daimonion não tinham em sua origem uma conotação inerentemente má. Embora sua etimologia seja incerta (com o possível significado de dilaceração ou de “separar rompendo”), os termos parecem ter sido usados para especificar um deus ou deidade menor no pano de fundo das crenças animistas populares.
Parece que Homero diferenciava entre daimõm e theos, sendo que o primeiro termo se constituía no poder divino entre os homens, ao passo que o último isolava o conceito da personalidade divina.
Antes do NT, no entanto, daimõn era usado em relação àqueles seres intermediários pessoais que, segundo se acreditava, exerciam a supervisão sobre o cosmos (Platão: Symposium 202e). Estes seres, pelo menos na crença popular, eram considerados espíritos dos finados, dotados de poder sobrenatural (Luciano: De morte peregrini 27).
Enquanto a ligação entre os demônios e as práticas especificamente más se desenvolvia lentamente no pensamento grego, este vínculo parece ter estado subentendido de modo consistente no uso hebraico de termos como sedim e seirim. Embora o AT ofereça pouca consideração do assunto, as práticas de idolatria, magia e bruxaria relacionavam-se com forças demoníacas (Dt 32.17; SI 96.5).
Visto que tais práticas entravam em conflito com o monoteísmo de Israel, eram especificamente proibidas para o povo de Deus (Dt 18.10-14; 1 Sm 15.23). A atividade demoníaca no AT, portanto, aparece como uma força oposta a Deus e aos Seus próprios seres intermediários pessoais, os malakim (anjos).
Quando, então, estes termos hebraicos foram traduzidos para a LXX, o conceito de demônio foi reduzido ao de um espírito mau. Mesmo assim, por causa da natureza positiva do uso religioso grego de daimõn, a LXX e o NT preferem o termo daimonion para expressar o conceito restrito.
No NT, juntamente com daimonion, a presença de demônios é descrita com os termos espírito "imundo" (akatharton, Mc 1.24-27; 5.2-3; 7.26; 9.25; At 5.16; 8.7; Ap 16.13) e espíritos "malignos" (ponera, At 19.12-16). A maioria das referências à obra destes espíritos ocorre com relação à possessão de indivíduos. Porém, não se oferece, nenhuma indicação quanto à sua origem; tomam-se por certas a sua existência e operação ativa.
De modo semelhante à associação no AT entre a idolatria e os demônios, o apóstolo Paulo declara que, embora os chamados deuses adorados pelos idólatras não tenham existência, existem forças demoníacas que instigam e propagam semelhante adoração, e para as quais a adoração é dirigida, e às quais os adoradores estão sujeitas (1 Co 10.20-21; 12.2; cf. Ap 9.20).
Tanto Paulo quanto o autor do Apocalipse entendem que a atividade de demônios aumentará nos tempos do fim e muitos homens serão seduzidos a segui-los (1 Tm 4.1; Ap 16.13-14). Talvez o tratamento mais abrangente do pensamento paulino sobre este tema ocorra em Ef 6.10-18. O cristão deve estar preparado para lutar contra "principados e potestades... os dominadores deste mundo tenebroso... as forças espirituais do mal, nas regiões celestes".
Diante disto, o NT mostra-se coerente na sua apresentação de um conflito entre dois reinos: o reino de Satanás, o príncipe deste mundo, e o reino de Deus que, através da encarnação de Jesus Cristo, invadiu o reino de Satanás. Não parece haver nenhum reconhecimento de um papel positivo para o daimonion, conforme se acha nos helenistas primitivos. O NT fica exclusivamente dentro da compreensão hebraica de que estes seres são de natureza completamente maligna e que estão destinados a compartilhar da destruição que Deus tem preparado para Satanás (Mt 25.41).
A Possessão
A maioria das referências à atividade demoníaca no NT ocorre nos evangelhos sinóticos, tratando de encontros entre Jesus e os endemoninhados. A expressão específica correspondente a possessão demoníaca (daimonizomai) não se acha nas Escrituras. Alguns estudiosos fazem a origem do termo remontar a Josefo (Antigüidades 47). A construção sinótica comum é daimonion echein ("ter demônio").
As principais características dos registros nos sinóticos das confrontações entre Jesus e os demônios incluem:
(1) Há uma alusão à aflição física ou mental atribuível à possessão - a nudez, a angústia mental e o masoquismo (Mt 8.28-33, cf. Mc 5.1-10; Lc 8.26-39); a incapacidade de falar (Mt 9.32; 12.22); a cegueira (Mt 12.22); a demência (Mt 4.24; 17.15; cf. Mc 9.17).
(2) Declara-se freqüentemente que o demonio reconhecia e temia Jesus como o Santo de Deus (Mt 8.28; cf. Mc 5.7; Lc 8.28; Me 1.24; cf. Lc 4.34).
(3) O poder de Jesus sobre os demônios é demonstrado geralmente quando eles são exorcizados pelo poder da Sua palavra (Mt 4.24; 8.16; 8.28; cf. Mc 7.30) ou pela permissão que Ele lhes dá para partirem (Mt 8.32; cf. Mc 5.13; Lc 8.32). Este poder também se achava nos discípulos de Jesus (Lc 10.17; At 5.16; 8.7; 16.18; 19.12) e é prometido a todos os crentes (Mc 16.17).
Em todas as partes do NT, outras características dos que estavam endemoninhados incluem conhecimento superior ou sobrenatural (Tg 2.19), a capacidade de prever o futuro (At 16.16) e força superior ou incontrolável (Mt. 8.28; 17.15; At 19.16; 17.15; At 19.16).
A capacidade de Jesus e dos Seus seguidores de exercerem autoridade sobre os demônios é estabelecida como um sinal escatológico da presença do reino que surge (Mt 12.22; Lc 10.17) e é causa de parte da popularidade da missão de Jesus (Lc 4.36). A atividade de exorcismo, no entanto, geralmente se associa com o ministério de cura exercido por Jesus e pelos apóstolos. Mesmo assim, é subentendida uma distinção entre a possessão demoníaca e a loucura (ou outros distúrbios).
A Possessão e a História Eclesiástica
Na igreja pós-apostólica alguns comentaristas desenvolveram um conceito de possessão demoníaca que ia além dos ensinos das Escrituras.
Justino Mártir acreditava que os deuses pagãos eram representantes de demônios que tinham caído do seu estado de vigilância angélica sobre os homens [Segunda Apologia 5).
Aquino desenvolveu a crença de Agostinho na capacidade de os demônios atacarem os homens a um ponto em que os demônios continuavam a prática, citada em 1 Enoque, de pecar sexualmente com homens e mulheres (Summa Theologica 1.51,3.6; De potentia 6.8, 57).
Influenciado, segundo parece, por certos escritos apócrifos, Orígenes acreditava que um anjo bom e um anjo mau vigiavam cada indivíduo, sendo que ambos tentavam influenciar os padrões de pensamento das pessoas. Acreditava, também, que existiam “demônios dos vícios” – assim chamados porque um deles controlava um vício específico (De princips 3.2,2-4)
Era feita uma distinção entre “possessão” e “influência” demoníaca, sendo que a pessoa possuída era chamada "energúmeno". Alguns entendiam que a influência demoníaca incluía a colocação de maus pensamentos diretamente nas mentes dos homens (Agostinho, Atanásio, Orígenes, Pedro Lombardo, Beda, Tomás de Aquino).
Esta forma de tentação era considerada o modo normal de operação do demônio, ao passo que a possessão era reconhecida como apenas uma extensão extraordinariamente forte do controle do demônio sobre o homem.
Os Métodos de Libertação
Justino Mártir registra que o exorcismo de indivíduos endemoninhados continuou sendo um ministério ativo da igreja pós-apostólica. O rito do exorcismo assumia várias formas, tais como a oração, o jejum, a imposição das mãos, a queima de raízes e a aspersão da água benta.
Apesar disso, o elemento crucial de um exorcismo bem-sucedido era a invocação ao nome de Jesus Cristo (Segunda Apologia 6). Tertuliano também dá testemunho do poder ao nome de Jesus quando este é invocado contra um demônio. Quando era corretamente adjurado, o demônio contava a verdade acerca de si mesmo, e era obrigado a obedecer a palavra do exorcista (Apologia 23).
Vários outros ritos eclesiásticos incorporavam uma dimensão ao exorcismo (expulsão de demônios) ou da ação apotropaica (de afastamento de demônios). Antes do batismo um candidato pode suportar certos rituais com o propósito de purificá-lo da contaminação demoníaca associada ou com o pecado original ou com a idolatria e a ingestão de alimentos oferecidos a ídolos (Reconhecimentos Clementinos 21.71).
O candidato pode também ser conclamado a renunciar publicamente a Satanás, aos seus anjos e aos seus caminhos, e a própria água batismal era exorcizada e consagrada. O sinal da cruz também era usado como um dispositivo apotropaico.
Na Idade Média, a quantidade de superstição que se desenvolveu em redor das várias crenças a respeito de atividades demoníacas e de ritos do exorcismo não demorou a causar uma perseguição em grande escala das chamadas bruxas e outras pessoas que, segundo se acreditava, "tinham parte" com o diabo.
A Reforma Protestante reagiu contra estes abusos. A Igreja Luterana primeiramente restringiu o exorcismo, e depois o aboliu por volta do fim ao século XVI. Os calvinistas renunciaram a pratica por considerá-la aplicável somente ao século I. Já em 1614, o Papa Paulo V restringiu severamente a prática no Ritual Romano (12,13) e o rito foi ainda mais limitado pelo Papa Pio XI, neste século.
As Opiniões Modernas
A crença ou descrença na existência dos demônios e, em alguns casos, do próprio Satanás, tornou-se uma das marcas registradas nas tradições liberal moderna e fundamentalista / evangélica na cristandade.
No lado liberal da questão, muita coisa que era chamada possessão demoníaca nas Escrituras agora inclui, reconhecidamente, muitas enfermidades psicológicas desconhecidas no século I. As ações de Jesus no tocante à suposta atividade demoníaca, segundo se argumenta, realmente tratavam-se de Sua adaptação às crenças contemporâneas dos camponeses palestinos, e não refletiam, de modo algum, Sua própria opinião sobre a causa das aflições individuais.
Por outro lado, com o aumento do interesse pelo ocultismo e da sua prática nos tempos mais recentes, a aceitação conservadora da existência tanto de Satanás quanto dos demônios parece estar confirmada.
O espiritismo desenvolveu-se tornando-se uma prática "religiosa" com amplo reconhecimento mediante a qual os indivíduos procuram o contato com forças espirituais num esforço de obterem ajuda ou informações para seu próprio proveito pessoal.
Os fenômenos psíquicos tais como levitação, os deslocamentos de objetos físicos, a telecinese, a psicografia e as materializações estão associadas com o espiritismo. Estas atividades parecem aumentar em intensidade à medida que o indivíduo se abre à influência espiritual.
Parece haver um paralelo entre as características daqueles que praticam o espiritismo e aqueles que são mencionados nas Escrituras como "possuídos" por demônios.
A libertação da sujeição aos demônios envolve a confissão da fé do indivíduo em Cristo como Salvador, a confissão e o arrependimento por seu envolvimento no ocultismo e o recebimento da libertação que se pode achar em Cristo.
É notável que esta ênfase dada à libertação da possessão através do poder operante de Jesus Cristo é totalmente coerente com o NT e não reflete, de modo algum, os abusos ou superstições associados com a Idade Média.
Artigo extraído da Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã - Editor Walter A. Elwell - 1988
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